Ando numa fase de mudanças.
Mentira. Ando numa fase cheia de pré-disposição para a mudança (o que, parecendo que não, é muito diferente).
A primeira passará por dizer adeus a este blog. Custa-me um bocado, afinal, cresci tanto neste espaço cor de rosa e que é, genuinamente, a minha alma em tinta (na verdade não é tinta, são teclas, enfim, não interessa).
Comecei um novo blog, bem diferente deste, lá está, fruto desta pré-disposição que me tem invadido os sonhos. Em breve fecharei este.
A todos os que por aqui passaram e passam, a todos os que me lêem, um muitíssimo e gigante obrigado. Vemo-nos nestas bandas, sempre que queriam, caso ainda queiram.
Foi um prazer.
terça-feira, 12 de abril de 2016
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Ele abraçou-me e disse-me:
- Mãe, vou fazer um poder para tu mais nunca (nunca mais em salpiquez) ires para o xéu.
- Como assim salpico?
- Então quando tu morreres eu faço pffrraupum, um poder e
tu não vais para o xéu.
- Não queres que a mãe vá para o céu quando morrer?
- Não. Quero-te sempre aqui.
E rachou-me a alma de receio e tristeza também, porque o meu
pequenino começa a perceber o fim, a mortalidade das coisas, a saudade. Rachou-se
a meio a alma porque apesar de mórbida esta foi a declaração de amor mais
profunda do meu príncipe loiro e crescido.
Rachou-se também porque espelho nele um medo meu. Aquele que
é inevitável. O do fim. O da mortalidade das coisas. (Então e a fé? Não sei da
fé. Tenho-a mas sem rédea, não sei usa-la quando preciso).
Eu não sei lidar com isso, isto, oh caraças que angustia.
Falemos de sexo filho, pode ser?
quarta-feira, 23 de março de 2016
#jesuis...
E de repente acordamos no nosso dia a dia seguro e monótono, na nossa casa quentinha, zangados porque os nossos filhos gordinhos nos acordaram à noite, prontos para tomarmos um banho relaxante antes de irmos trabalhar. Pegamos no nosso smartphone com internet e fotografias, abrimos as notícias e toma lá chapada na cara. O que é isto? O que se passa no meu mundinho evoluído, seguro e monótono, o que vem a ser esta merda, podia ser eu, o meu marido, os meus irmãos a morrer naquela tragédia que levou mais de 30 pessoas de uma só vez...
Triste, tão triste esta era que vivemos. Onde rebenta com tanta força um ódio mascarado de deus, uma raiva pela nossa cultura segura e monótona onde todos somos charlie, todos temos uma opinião a dar no Facebook, nos blogs, nos artigos online, porque enfim, a liberdade é um dado adquirido e nós estamos zangados e gostamos de likes. Mas aqui, bem longe das culturas chacinadas, das crianças queimadas vivas, mulheres violadas, meninos raptados. Vocês aí, com as vossas bombas, e nós aqui, com os nossos belos hashtags.
Estou zangada eu também. Não sei o que motivará uns putos mais novos que o meu irmão rebentarem assim, sem mais nem menos, com eles e outros num dia normal. Não sei em que moradas se escondem estes monstros desumanos, deturpadores de uma fé que é, ao fim ao cabo, amor, só amor, e que conseguem chegar aos nossos do lado de cá, os que cresceram neste mundo evoluido e seguro e livre e superior, mas já sem fé e sem amor, vazios de esperança... Não sei que ódio é este, não entendo o fanatismo, não compreendo este desamor que os acusamos.
O que entendo, compreendo e vejo, é que acordamos num dia como outro qualquer, zangados com os impostos ou com a política, confortáveis no nosso mundinho seguro e monótono, e rebentaram-nos a segurança, abalaram os nossos supostos valores tão dignos de likes. E num piscar de olhos somos eles, e odiamos, berramos, apontamos o dedo a uma cor ou raça. Todos em guerras de likes e ofensas quando deveríamos estar do mesmo lado. O da tolerância. O da liberdade. O da paz. O do amor.
segunda-feira, 21 de março de 2016
Senta-te aí. Bem à minha frente, olha-me nos olhos e ouve-me. Ontem esteve sol, lembras-te? Sentaste-te lá fora, carne ao lume e um copo de vinho branco. O pequenino dormia, e o grande pediu-te para ver descalso no sofá da sala a história do menino Jesus. O que sentiste?...
Senti... Paz.
Paz, num momento tão simples, num momento que é uma fotografia da tua vida... Porque choras?
Choro porque sei que sou feliz. Mas não sei eternizar aquilo que sei que sou, nos momentos mais simples da minha vida. Choro porque na ânsia do amanhã deixo tantas vezes fugir o agora. Esse agora que me falas e que é meu, e que tantas vezes me passa despercebido. Choro de cansaço de mim mesmo, da ingratidão que por vezes me inunda no meu egoísmo, tão cego da pena que tenho de mim mesmo... Choro... Não sei porque choro.
Olha para mim... Lembras-te do sol de ontem? Do som do teu lar, do cheiro dos teus? Lembras-te?
Lembro...
O que sentiste?
Paz... Senti tanta paz que achei que ia parar de bater.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Deito-me sempre cedo. Tenho o corpo dorido pela alma.
O sono normalmente tem um efeito devastador em mim. Baralha-me
as ideias, chocalha-me sentimentos, toda eu escorrego entre aquilo que é
racional e emocional, trocando um por outro a todos a cada virar dos segundos.
Ontem deitei-me, como é habitual, (muito) cedo, e veio comigo a
minha primeira obra de arte, em vias de fazer 5 anos. Não sei explicar o efeito
que uma mão gorducha cheia de anos tem em mim, mas é assim brutal. Agora sem
sesta, ele adormece em mais ou menos 2 segundos.
Fiquei a olhar um bocadinho para ele, o meu loiro bonzinho,
ali na calma do lar, na segurança que a minha cama lhe transmite. Ao menos
isso. Sei que dorme sossegado, deve sonhar com spider mans, corridas nos pinhais, tablets cheios de
jogos e sacos carregados de coijasboas.
Fecho então os olhos, e passa na minha cabeça o dia confuso quer vivi. Emails
apressados. Trocas de mensagens em alvoroço. Mãe com dores de costas e eu sem
tempo para a falta de tempo.
Abro novamente os olhos. Ao menos isso. Ele dorme sossegado.
Consigo até ver-lhe um sorriso, aposto que está a comer coijasboas mascarado de spider man.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Eu por norma sou refilona. Acho que é fácil perceber isso. Ás vezes zango-me comigo mesma, não é muito justo que com a minha sorte eu me ponha a refilar porque o miúdo não dorme, o despertador não tocou, ou o raio que o valha. Mas refilo imenso. Tudo é dramático em mim.
Outras vezes acho que é essa minha característica que me salva de mim mesma, do caos que às vezes tenho instalado na alma. Atiro cá para fora em palavrões e pronto, estou limpa.
Os meus filhos estão a crescer a uma velocidade estonteante. De hoje a uma semana o meu caracóis de sol faz 5 anos, e temos tido ultimamente novos desafios nesta corrida alucinante que é a de educar (enquanto amamos, trabalhamos, corremos contra o tempo).
O meu pequenino gigante diz pópó, e se lhe perguntam como faz a mãe ele imita o som de uma vaca. Um ano e meio e já me chama de vaca, mas é amoroso, dá vontade de lhe dar beijos na boca a toda a hora.
Depois há as notícias, essas filhas da puta que nos dão socos no estômago logo pela manhã. E eu já não me queixo. Só anseio de forma animalesca que tudo fique assim, nada mude: um gordão que me chama de vaca com grunhos alegres, um caracóis de sol que me beija na boca mesmo quando está de castigo. Fiquem assim, felizes para sempre está bem?
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Reapaixonada
Ás vezes ponho-me a pensar em questões altamente profundas (por norma a ouvir chopin, tipo intelectualoide suburbana, no comboio, vejo os subúrbios tristes e cinzentos, as pessoas cansadas e com pressa).
Vejo com alguma nostalgia que a norma não é a alegria, e isso aflige-me, não por mim, que até consigo perceber o sublime do triste, mas porque achei que devia meter duas pessoas neste mundo. Ainda por cima, vejam-me bem o azar, calhou-me ser a mãe das duas pessoas mais importantes do universo, e eu para eles não espero mais do que felicidade assim tipo todos os microsegundos da vida deles.
Enfim, lá está o meu útero à estalada com o meu cérebro, não vinha para aqui falar dos meus (absolutamente espetaculares e fenomenais) filhos. Vinhas antes tentar meter em palavras uma coisa que senti há bocadinho quando fechei os olhos num pequeno excerto de música logo após passar a ic19, isto num fim de tarde tragicamente cinzento. Vinha tentar fazer-vos advinhar este soluço que não sai, conseguem ver? Não?
Sou eu, reapaixonada. Pela minha casa, pela minha pessoa, pelos meus amigos, pelos churrascos com imperiais, pelo meu adónis em vésperas de dia dos namorados.
Isto é lixado, isto leia-se a fórmula da felicidade. Os dias repetem-se, nós queixamo-nos porque não há dinheiro, há cansaço, está a chover, enfim, porque sim. E o tempo passa sabem? Por isso, é estar atento, estas coisas boas vêm de fininho, assim de surra, a música é linda e mexe cá dentro, o almoço sabe-nos particularmente bem, o telefonema da manhã com o marido foi especial. Se não somos inteligentes... Mentira, não é inteligentes, a inteligência às vezes é triste como a merda. Se não somos agradecidos, estes momentos são esborrachados pelo dia a dia, que passa igual a ontem e ao amanhã. E assim quebro a norma, só um bocadinho, e não sou triste. Sou momentaneamente incrivelmente sortuda e reapaixonada.
(Foda -se passei a estação, estou atrasada, tenho de correr mais ainda. Merda.)
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Olá, estou viva
Não tenho escrito.
Também não tenho pensado muito. Mentira, até tenho. Ou não,
não é bem pensar, acho que tenho sentido cenas, mesmo buédacenas.
Ando cansada, mas isso não é novidade nenhuma, my middle
name is cansada, se bem que chego a roçar a exaustão por vezes. Esta vida às
vezes cansa.
Já descobri a missão dos filhos. Os filhos fazem com que de
repente um ano pareça uma semana, dantes não era assim, tenho a certeza
a-bso-lu-ta. Demorei cerca de 15 anos a fazer a minha licenciatura, mas o meu caracóis
de ouro, que nasceu mais ou menos anteontem, faz 5 anos não tarda. Como é possível?
Não faço puto de ideia. Aliás, não sei se vos contei mas tenho um recém nascido
lá em casa que já come sozinho e tem 7 fileiras de dentes afiados. Não sei como
não sou famosa, acontecem coisas transcendentes na minha vida.
À noite, antes de desmaiar na cama, naqueles 4 segundos que
antecedem o sono profundo, assalta-me uma perguntar em modo repeat: o que é que
te faz feliz? Mas antes de conseguir responder adormeço e entretanto já
acordei, tomei banho e estou o escritório a pensar se mandei dodots para a
creche do Manuel.
Estão a perceber o que vos digo?...
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
O melhor da vida são os nossos filhos. E tudo na vida é relativo.
O melhor da vida são os nossos filhos. E tudo na vida é
relativo.
Não sei que título dar a isto. Estou exausta, adonis também,
já lá vão muitos dias com o sono interrompido.
Piqueno Abdul volta a ficar doente na sexta. Febril e
ensonado, vagamente rabugento. A noite é um pandemónio, era tosse, lágrimas,
ranho e por fim vomitado all over the place. Casal brasa desdobra-se entre
colo, muda de lençóis, benuron e brufen.
Íamos aproveitar o sol do fim de semana para churrasco na
rua e passeios na praia. Lol. Este post também se pode chamar parou aí na hora
de tentar programar a vida se tens seres provindos do teu útero. Maneiras que
sábado também andamos assim. E o miúdo sem descansar, com pouca fome, olhos
chorões e olheirentos, febre com tremores. E vai que de repente se nos mete na
cabeça uma palavra. Meningite. Corro á net para ver o que é a meningite. Puta
da net na hora que mais precisamos dela mete-nos sintomas que podem ser sono,
gripe, e gastroenterite, enfim, qualquer sintoma cabe na meningite. Ligo para a
saúde 24, ai acuda-me que estou com medo que seja meningite, e o homem do outro
lado impecável a cumprir o seu script. Urgência connosco. Na triagem pumbas, mais
de 40 de febre, apesar de ter tomado o benuron há 4 horas. Chorão e murcho.
Pulseira cor de laranja, brufen no bucho, passamos à médica (um amor, mais uma
vez hospital de cascais you rule).
_ O menino é saudável?
_ Creio que sim, teve tosse convulsa em bebé.
_ Ah bem me parecia que conhecia a sua cara, cá beijinho.
Ausculta, mede, vê-lhe a garganta, novo vómito, chora muito. Raio x à criança e quero vê-lo de novo sem febre que assim ele não coopera.
_ O menino é saudável?
_ Creio que sim, teve tosse convulsa em bebé.
_ Ah bem me parecia que conhecia a sua cara, cá beijinho.
Ausculta, mede, vê-lhe a garganta, novo vómito, chora muito. Raio x à criança e quero vê-lo de novo sem febre que assim ele não coopera.
Sala de espera, raio x, tudo rápido.
Enquanto esperamos para ser chamados novamente, ele arrebita, faz cucu às pessoas, e caminha arrastando o seu coelhinho imundo pelo chão (já desinfetado com lixivia).
Enquanto esperamos para ser chamados novamente, ele arrebita, faz cucu às pessoas, e caminha arrastando o seu coelhinho imundo pelo chão (já desinfetado com lixivia).
"Senha P148", lá vou eu a correr.
_ Pneumonia mãe.
E eu
_ Ah graças a Deus.
E ela
_ ????
Estamos em casa, antibiótico e muito mimo.
Já vos disse que tudo na vida é relativo? E que o mais
importante são os nossos filhos? E dormir. Dormir também é muito importante que
eu estou de uma sensibilidade que só visto, é ver-me entre caralhadas e
lágrimas só porque tropeço ou ando, ou rio, ou lavo a loiça, enfim, porque existo
e estou exausta. Mas aliviada, ainda assim.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Pequenos acessos de inspiração. É isto que tem acontecido na minha vida, pequenos, brevíssimos acessos de inspiração.
Abro o word, fecho o word, abro o blogger, fecho o blogger. Um horror, uma existência profundamente exaustiva esta minha, transbordo cenas e quando as quero vomitar fecham-se-me as torneiras.
Tenho tido o abdulah doente. Doente é o termo, o puto esteve mesmo aflito para respirar. E eu, ando tão cansada, tão vai não vai, tão aqui e ali, que quase estive para não o levar ao médico. ah e tal se calhar não é nada, uma borrifadela de soro resolve a cena. Mas não resolveu. Maneiras que quase fui péssima mãe, porque quase não o levei ao médico. (Apesar de depois o ter levado e agora o puto estar mais medicado que um tuberculoso, mas vocês percebem a ideia.)
Enfim, ando nesta impaciência constante. Parece que tenho as coisas quaaaase a resolverem-se e quando chega a hora, que sa foda, e sento-me fumo um cigarro. Não ando nem desando.
Isto é um desassossego permanente. Decido que vou recomeçar a mexer-me, hoje vou a pé para o trabalho, digo eu toda lambona, mas depois apanho o metro. Decido que vou fazer dieta, mas depois mamo um leite com chocolate com a mesma sofreguidão de um alcoólico em abstinência. Esta merda do ano novo provoca isto em mim, acho eu, uma pessoa desata a enfardar passas uma pela saúde (deixa de fumar), uma pela felicidade (deixa de te queixar), pimbas e pimbas, passas e mais passas. Tocam as 12 badaladas e aqui estamos nós, gordos de resoluções para começar amanhã. E vamos a meio de janeiro e eu aqui. Flácida e queixosa.
Entretanto não era nada desta merda deste texto que eu queria escrever, estava convencida que me ia sair uma cena toda poética e sublime, cheia de metáforas inteligentes, mas olha é o que temos.
Foda-se que neura.
Abro o word, fecho o word, abro o blogger, fecho o blogger. Um horror, uma existência profundamente exaustiva esta minha, transbordo cenas e quando as quero vomitar fecham-se-me as torneiras.
Tenho tido o abdulah doente. Doente é o termo, o puto esteve mesmo aflito para respirar. E eu, ando tão cansada, tão vai não vai, tão aqui e ali, que quase estive para não o levar ao médico. ah e tal se calhar não é nada, uma borrifadela de soro resolve a cena. Mas não resolveu. Maneiras que quase fui péssima mãe, porque quase não o levei ao médico. (Apesar de depois o ter levado e agora o puto estar mais medicado que um tuberculoso, mas vocês percebem a ideia.)
Enfim, ando nesta impaciência constante. Parece que tenho as coisas quaaaase a resolverem-se e quando chega a hora, que sa foda, e sento-me fumo um cigarro. Não ando nem desando.
Isto é um desassossego permanente. Decido que vou recomeçar a mexer-me, hoje vou a pé para o trabalho, digo eu toda lambona, mas depois apanho o metro. Decido que vou fazer dieta, mas depois mamo um leite com chocolate com a mesma sofreguidão de um alcoólico em abstinência. Esta merda do ano novo provoca isto em mim, acho eu, uma pessoa desata a enfardar passas uma pela saúde (deixa de fumar), uma pela felicidade (deixa de te queixar), pimbas e pimbas, passas e mais passas. Tocam as 12 badaladas e aqui estamos nós, gordos de resoluções para começar amanhã. E vamos a meio de janeiro e eu aqui. Flácida e queixosa.
Entretanto não era nada desta merda deste texto que eu queria escrever, estava convencida que me ia sair uma cena toda poética e sublime, cheia de metáforas inteligentes, mas olha é o que temos.
Foda-se que neura.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Som terrível este do despertador. Abro os olhos saída à bruta de um sonho agitado e estranho, ponho o telefone no silêncio e viro-me de barriga para cima. Está escuro lá fora e chove miudinho. Tenho 4 minutos para acordar mesmo acordar, aquele acordar que implica levantar. Está escuro lá fora, e chove miudinho. Os miúdos dormem no quarto ao lado, ouço-lhes o respirar sempre ranhoso nesta altura do ano. Tenho 4 minutos para acordar mesmo acordar, aquele acordar que implica levantar. Fecho os olhos só mais um bocado, tenho a cabeça confusa ainda sobre o que é sonho ou real, e lá fora está escuro e chove miudinho, tenho ainda três minutos para me levantar. Ao meu lado a minha metade, quando o sinto perto de mim assim descansado a dormir, tenho vontade de congelar o tempo só por um milhão de anos para apreciar devidamente aquilo que é a paz de um grande amor. Suspiro. Sei que já tenho a roupa escolhida para o novo dia, o café já está colocado no filtro só falta aquecer a água e, por isso, tenho ainda dois minutos para acordar mesmo acordar, aquele acordar que implica levantar. E está escuro lá fora, e chove miudinho. Lembro-me do salpico ficar de beicinho e dizer-me, mãe tira isto, faz-me triste, porque estão a tirar a princesa a ele? Era só um videoclip, e era só uma fã ser arrastada em braços depois de se atirar ao michael jackson, mas o meu caracóis de sol ficou triste, porque não se tiram assim as princesas a eles. E ele tem razão.
Abro os olhos. A calma da madrugada. Deprime-me e adoro-a. E se eu arriscasse? E se...
O despertador toca por fim, zero minutos para acordar mesmo acordar, aquele que implica levantar. E levanto-me para a vida ao cronometro.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Para 2016
Desejo pouco. Ou muito, depende da perspectiva.
Já quis que tudo ficasse igual. A minha personalidade é, por norma, incompatível com a mudança. Para 2016 quero por-me de frente para o mundo, para o destino, para o futuro, e aceitar a mudança pelos cornos.
Quero saber aproveitar os meus filhos. Quero brindar-me melhor com o prazer de os ver crescer, sem ser de forma cronometrada pela hora do comboio, da sopa, da sesta.
Quero lutar contra mim, naquilo que não mudo nunca. Porque quero sorrir mais, amar mais, viver mais. Para 2016 quero continuar a surpreender-me com as pessoas. Quero obrigar-me a ver as pessoas. Quero começar a gostar de pessoas, talvez seja melhor para começar.
Deixarei de por o pijama mal chego a casa, e de tremelicar de nervos com o aproximar da noite e sua possibilidade de ser infernizada.
Quero relaxar na forma como encaro a vida. Quero abrir a gaiola que fechei quando deixei de ser menina e passei a ser mulher. Quero derrubar todos os muros que construí com o passar dos anos e ser eu, mais eu, quando me rio, quando choro, quando amo.
Por falar em chorar, quero chorar pelo menos uma vez por mês, e rir três por dia.
Quero deixar de ter medo.
Para 2016 quero somente deixar de ter medo. O resto vem por acréscimo.
Bom ano pessoas!
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Natal
Passou-se mais um natal. O quarto desde que sou mãe, o segundo desde que sou mãe de dois, o que torna o reboliço típico da época digamos... desafiante. Encosto a cabeça no vidro do comboio, chove lá fora e a paisagem é deprimente. Venho com o corpo ainda entorpecido, ressacado, sovado das corridas atrás de um abdul amoroso e suicida com queijo na serra numa mão e um copo de vinho na outra. Dois dias de maratona de costas, pernas e estômago.
Voltar à rotina depois do êxtase é um bocado deprimente. As luzes que ainda piscam nas janelas e nas ruas já estão fora de prazo, a alma está enjoada de tanta fartura.
Apetece-me fechar os olhos e dormir. Fecho os olhos mas não durmo, nunca consego dormir no comboio, por mais exausta que esteja. Não durmo mas lembro-me da alegria dia meus filhos com as coisas mais simples. O salpico adorou uma cena para fazer bolas de sabão gigantes e uma mega caixa de cartão que é mesmo só isso, uma caixa de cartão. Mas ele cabe lá dentro e por isso passa a ser uma casa,um foguetão, um tornado que o leva ao Japão. O abdul adora por soro na penca. É de se comer ri-se todo e põe-se a jeito para o jacto furioso penca a cima para lhe limpar futuras bronquiolites. Acho que também foi o que mais gostou no natal, ter o nariz limpo de meia em meia hora que eu sou obcecada com doenças. Cagaram os dois na cenas relativamente caras que lhes demos, hoje em dia com tanto custo, e toma lá para aprenderes, natal é amor e sorrisos, quem te manda ser consumista? Enfim, lição aprendida por 11 meses, novembro que vem lá cometeremos o mesmo pecado de não lhes dar apenas o que os faz sorrir. Soro para o abdul, caixas de cartão para o salpico.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Chorar
Não sei se isto acontece a muita gente. Mas com a idade, bom, na verdade não sei se foi com a idade, mas sinto que com o tempo tenho aprendido a bloquear o choro (ou desaprendido a lavar a alma).
Parece que o meu cérebro deixou de identificar sinais de tristeza e reinterpreta-os automaticamente de outra forma: estás cansada, estás naquela fase do mês, estás stressada. Passam-se meses e eu não choro.
Ás vezes, do nada, lá vem a vontade com coisas tão estúpidas como o noddy furou um pneu e o carro irritante faz um olhar triste com os faróis. O queixo treme, a garganta fecha, a visão fica enublada e eu levanto-me às caralhadas, vou-me assoar e começo a despejar a máquina da loiça.
Cultura de merda, temos de ser constantemente felizes. Os anúncios dizem-nos isso, o Facebook diz-nos isso, as notícias e desgraças dos outros obrigam-nos a isso.
Este fim de semana entregamos-nos à limpeza semanal e profunda da casa. Com dois seres pequenos, o dia inteiro fora de casa e sem empregada, sábado obriga-nos a botar do joelho no chão e esfregar desenfreadamente banana do chão, dedadas na televisão e cotão nos brinquedos.
Acabada a faxina do casal, adónis sai com criançada para um café e eu aproveito para um banho demorado. Ponho o banho a correr, que sensação boa, casa a cheirar a pronto e sonasol, cansaço das costas e sensação de dever cumprido. E de repente o espelho, e eu comigo, olhos nos olhos. Já fizeram isso? Não é ver se estamos penteados ou com olheiras. É olhos nos olhos com o eu do espelho. Estranhíssimo, em segundos um kilo de soluços e três oceanos de lágrimas. Nem sei porquê... Mas estou sozinha, ninguém vai entrar, e os olhos do outro lado do espelho só desviam se eu desvear, e então choro e choro, porque estou feliz com a casa limpa, porque adoro os meus filhos, porque estou exausta, porque o cabrão do noddy furou um pneu. Eu e eu. Eu comigo mesma.
Tomei banho e saí lavada.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Sempre que abro o blogger e venho para aqui desbobinar palavras fico com a sensação que me repito. Over and over again...
Não sei bem o que é, venho no comboio, por norma ouço musicas nostálgicas, à minha volta caras estranhas, que vida terá cada uma destas pessoas?, e lá fora a expectativa de um novo dia que rebenta. Mas que será, inevitavelmente, pouco diferente do de ontem ou anteontem... E então abro o blogger porque parece que tenho assim carradas de cenas cá dentro, e quando as começo a organizar pimbas. Cá venho eu novamente, necessariamente, obrigatoriamente, constatar que este mundo é pequeno e grande demais. Foda-se não sei porque decidi ser mãe, juro-vos que às vezes não sei. Quanto aos vossos enfim, cada um sabe de si, mas aos meus, oh céus, a sério, este mundo não lhes cabe.
Falávamos no outro dia entre amigas desta coisa estranha e brutal que se sente quando de um útero nos é disparado um filho. O constante sofrimento. E perguntaram-me, porque sofro eu, tenho medo que duas criaturas pequenas, sorridentes e sempre cagadas de areia e de terra sejam infelizes? Bom, infelizes ainda não, não têm idade para isso. Mas, por exemplo, já tive vontade de espancar um cabrão de um pai natal que não perguntou ao meu filho mais velho o que ele queria para o natal, depois de perguntar a todos os amiguinhos da escola (barbudo filho da puta). Ou de pregar uma rasteira a um estuporzinho de olhos tortos que não emprestou o carrinho precisamente ao meu jóia mais velho. Nada de significativo portanto, mas que vontade de agarrar no mundo e moldá-lo tipo plasticina em castelos de gomas, princesas com poderes, coelhinos de peluche fofinhos para o meu pequeno esfregar no nariz sempre que lhe apetece. Isso e espancar um cabrão de um pai natal.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Montei a árvore de natal.
O meu filho mais velho deixou-me abrir o dia 06 do
calendário do advento. Disse-me também “tou muito feliz por tu fajeres anos”.
Almocei na rua. E bebi mínis.
Vi sobrinhos e cunhados, primos e amigos.
Beijei manos e pais.
Bebi imperiais no miradouro do passado. Com o presente a
correr livremente pela esplanada.
Jantei carne em sangue.
Cantaram-me os parabéns e o Abdul sorriu de olhos muito
abertos por achar que a canção era para ele. (e cantou-a baixinho, como só eu e
o pai lhe sabemos traduzir “badaaabadaaaa!”)
Fiz anos, 32 anos, e o meu dia foi tão bom.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Tenho dois cabelos brancos
Tenho dois cabelos brancos. Cabrões, eu que não tenho cabelo, tenho uma vaga amostra de pelo de hamster, eis-me aqui com dois cabelaços crespos, hirtos e fortes... Brancos.
Tenho dois cabelos brancos que ganhei com os segundos a passar, com a angústias do dia a dia, com este amor tsunamico e avassalador de mãe. Um por filho. Um por ovário.
A minha avó já tem 91 anos e a cabecinha toda branca, parece um dia de inverno na neve. Bendita senhora, tão pequenina e mais forte que qualquer lutador de sumo. A minha avó é sábia, não sei alguma vez vos disse, aceita a vida como ela vem. A minha avó aceita mesmo o inaceitável e segue em frente, sempre direita, sempre viva. A minha avó acordou um dia de manhã e disse, meninas vou para um lar. E foi... A minha avó nasceu em berço de ouro, viveu infância e juventude à downtown abbey, e aceitou que a vida lhe fosse tirando as casas, o espaço, o marido e dois filhos. E foi bem direita, com a sua cabecinha toda branca que me disse: querida vou para um lar. E foi...
A minha avó é sábia, não sei se já vos disse, a fé que tem permite-lhe aceitar cada cabelo branco que a puta da vida lhe deu, sempre direita.
E eu, tenho ideia de já vos ter dito, tenho dois cabelos brancos que quero aceitar como a minha avó aceita a vida. Mas são tão crespos os cabrões...
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Parabéns parabéns, oito vezes parabéns!
Não sei se isto acontece a toda a gente. Mas às vezes tenho micro segundos que me vão buscar aos recônditos da memória momentos de uma forma fotográfica. Micro segundos que derepente viajo no tempo.
Eu de coração a bater dentro a boca. Ao meu lado o meu pai de beicinho. Eu de expectativas no auge, eu com todo um caminho à minha frente, é só pôr um pé em frente do outro, todos me esperam, todos me encorajam. O vestido que me fez sentir princesa. Eu de coração aos saltos na boca. Afinal, é um livro em branco aberto para mim, é a minha história em caneta de tinta permanente. E lá ao fundo tu (mas afinal o que foi que fizeste ao cabelo?). A tinta da minha caneta. As páginas pares do meu livro ainda em branco.
Oito anos, dois filhos, alguns sustos, muitas imperiais, várias tentativas de deixar de fumar, noites em branco, uma casa de sonho, tantos risos, algumas lágrimas, areia primeiro em 4 pés, depois em 6 e mais tarde em 8. Oito anos de nós. Lembras-te do cheiro da igreja?... Cheirava aos sonhos que já estamos a concretizar.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Dúvidas, a minha vida é só dúvidas
Já não sei que mundo é este que recebe os meus filhos.
Não sei de onde vem toda esta cena mole e peganhenta de
horror, indiferença, hashtags poéticos e uma inatividade a touchscreen.
Já não sei que explicação lhes dar, honestamente, e isto é
um problema. Oh mãe existem lobisomens? Eu digo que não, mas que os há há. E ganham
os cabrões. Isto é difícil de gerir e explicar, queria agarrar neles, delimitar
um perímetro de segurança física, moral e emocional, dizer-lhes que além fronteiras não há nada, só um buraco negro que
chupa tudo lá para dentro. As crianças obedecem sempre melhor face ao medo.
Mas tudo isto é impossível e lá fora a polícia
anda armada, e tenho azia cada vez que me enfio num comboio cheio de gente. Prevejo
uma úlcera nervosa dentro de poucos meses.
Entretanto o costa é indigitado, ora mas que bem, votos para
que vos quero, os outros, panilas de merda, ficam na retaguarda não vá a
realidade ser mais fodida do que se espera e há que manter a coerência para
poder berrar IMPOSTOS NÃO GOVERNO AO CHÃO.
Merda para isto.
Este fim de semana foi maravilhoso, mas abriu uma portinhola
lixada no meu coração, aquele ar imenso, todo puro, a calma que não se vê na
cidade, e eu, o que faço eu aqui afinal?…
Dúvidas. A minha vida é só dúvidas.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Conversas lá em casa
- Brasa é verdade ….
- MÃE O MANELI TIROU-ME O BINQUEDO
- Já vou. Mas estava a dizer-te…MANÉL TIRA A FACA DA BOCA
(e corro para o salvar de si mesmo)
- Diz lá.
- Bom, hoje…
- BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
- O que é que se passa Salpico?... (os dois a correr para a
sala)
- O MANO DASLIGOU A TAVIJÃÃÃO
(Enquanto ligo a puta da tavijão, agarrando o Manuel por uma
perna que grunhe desvairado a tentar alcançar o botão da tavijão)- Bom dia
Dizer-te que…
- EU NÃO TAVA A VER IXO ERA O SPIDER MAAAAAN
(Manel) NÃNÃNÃNÃNÃÃÃÃÃ
(e cai com a birra de cabeça para trás)
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH.
IADIZERTEQUEJÁPAGUEIALUUUUUUUUZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ.
Este fim de semana casal adónis parte sem crianças para fim
de semana sem horários, sem interrupções, sem banhos birras sopas. OÍEÉ
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