quinta-feira, 30 de abril de 2015

Para quem ficou WHAT THE FUCK com o post anterior

Estou em processo de mentalização para deixar de fumar. (Ainda) Não deixei de fumar. Aquilo foi um sonho. Foda-se que se tem de explicar tudo.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Deixar de fumar - take 1

Abro os olhos. Consigo ouvir a minha pulsação na máquina. Ritmada. Pausada. Pi. Pi. Pi.
Oiço também a bomba que me dá ar. Demoro alguns segundos a voltar a mim. Tento mexer os braços, não consigo. E a máquina. Pi. Pi. Pi.
Na minha cabeça os meus filhos. Mãe quero comer os teus cabeios. Sorrio. O som da xuxa, a forma como me cheira deitado ao meu lado de pijama. Janela aberta para as fadas entrarem, mãe hoje as fadas vão dar taaanto pójinho mágico a eu para eu ficar tanto gande. A mão morena do Manuel. Dadadada. Beijos nos refegos que cheiram a Johnson “bons sonhos”.
E olho à volta. Só consigo mexer os olhos. E a bomba pausada. Pffff. Pausa. Pfffff. Oiço vozes mas não as entendo.
As festas nas escolas. Manuel a andar, taralhoco, olhos tão grandes e vivos, sedentos de novidades que encontra nos paus, no mar, nas formigas no chão.
Salpico a escrever pela primeira vez mãe adoro-te.
No peito sinto agulhas, a garganta seca, quero virar a cabeça. Não me consigo mexer. Tenho tanto sono. E a máquina. Pi. Pi. Pi. Agarro-me de novo àquela linha estranha e boa de pensamentos. Os olhos cor de mel do meu salpico. Eu que lhe ralho, não podes comer tantas coisas boas, ficas doente. Oh mãe, fico taanto godo que não conxigo correr? O Manuel gatinha atrás de mim. Amo-os tanto. É tão estranho este amor, como se fosse uma continuação de mim, mas melhor e não minha.
- Mãe.. mãe?
Quem me interrompe? Estou tão feliz aqui, na lembrança. E então a voz do médico. Terminal. O meu adónis a engolir lágrimas ao meu lado. Querendo ser forte para mim. E eu focada. Terminal. Terminal. Terminal. Termina aqui? Calendário de tratamentos. Cigarro filho da puta. As dores. O cabelo na banheira. Quero chorar mas os tubos não me deixam mexer. Isto só pode ser um sonho, isto é um sonho. Quero  pegar nos filhos dos meus filhos.
- Mãe.
- Deixe a mãe salpico…
E eu quero responder, olhá-lo, falar-lhe, mas tenho tubos, e a máquina. Pi. Pi. Pi. Come-me os segundos que se vão.
As xuxas no chão. O Manuel no meu colo, morde-me o queixo. E o salpico. Mas eu poxo ir cuntigo para o xéu mãe?
E o céu, existe?
- Não salpico. Mas a mãe vai estar sempre aqui. No seu coração.
Abro os olhos. A máquina. Pi. Pi. Pi. Vejo-os ali. Os meus três homens. A minha família que o meu cigarro destruiu. E o arrependimento grita mais alto que a máquina. Pi. Pi. Pi.
- Mãe?
Olho para ele. Caracóis de sol despenteados. Chora com o narizinho colado a mim. O Manuel dorme ao colo do meu marido.

Fecho os olhos e adormeço num sono que não é meu.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Sou boa a educar

- Mãe, poxo dijer maxada?
- Massada? Pode, claro. (chique o raio do puto, diz "que maxada, hoje é frango outra vez")
- E bolas? BOOOOOLAS?
- Sim, também pode dizer booolas! (Sou boa a educar, não há qualquer tipo de dúvida. Olheiras recompensadas. E olho-o enternecida, vaidosa do meu excelente trabalho)
- E caiáio? Poxo? Poxo dijer caiáio?
- ... (foda-se puto, tavas a ir tão bem...)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tenho saudades do meu avô... Acho que é muito raro o dia que passa e eu não me lembre dele, calmo e sereno, tão bom o meu avô. Agora vou rumo a casa, tenho o pequeno doente, e lembro-me de novo do meu avô Manuel e de como ele iria amar este Manuel pequenino que eu fiz. E fico assim com vontade de chorar, como se fosse pequenina outra vez, e pudesse chorar à vontade porque o meu avô me calaria o choro com presentes e goluseimas. Mas não posso chorar, estou no comboio rumo a casa para acudir um Manuel pequenino que está doente. Sou crescida. E o meu avô faria hoje anos. E diria oh Santito o seu avô não merece foi ter trabalho comigo Santito, por causa de uns after eight que lhe daria com beijos. Mas ele não está cá. E eu estou com saudades e confusa porque tenho um Manuel pequenino e doente em casa que passou a noite em branco... E porque hoje o meu avô faria anos e eu não sei o que fazer aos after eights que tenho na dispensa.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Direitos

Aqui no sitio onde trabalho, e uma vez que as coisas estão, digamos, vá, estranhas, têm-se implementado algumas medidas de motivação para compensar a estranheza/falta de promoções/incerteza em relação ao futuro/ pânico/ descrença etc e tal.
A primeira medida foi dar o dia de anos ao colaborador. Um grande clap clap. De seguida, pessoas com filhos até aos 18 anos podem gozar a tarde de anirversário dos filhos. Mais um clap clap? Mais ou menos.
Tenho uma grande amiga antiga, que, lá está, é um poço de incoerências e por isso a amo tanto. Pois que ela, que primeiramente achou tudo muito bonito, quando resolveu dar corda aos neurónios e começar a pensar no assunto, auto intitulou-se de indignada. ESTOU INDIGNADA. Toda e qualquer mãe fica logo assanhada com a falta de sensibilidade desta gente que, não tendo filhos e, por consequência, uma vida totalmente livre, despreocupada e descansada, se indigna com este tipo de medidas exclusivas para pais/mães. Eu primeiro não liguei peva, no fundo toumacagar, acho que sim, eu mereço a merda da tarde para ir comprar smarties e bolos. Mas depois a discussão foi-se estendendo. E eu, mãe de duas criaturas infernais, gozadora de maravilhosas baixas de maternidade e redução de horário até à criança completar um ano de vida, estou com a minha amiga antiga, que ora é comuna, ora é fascista, e acho uma injustiça. Não que as mães gozem as tardes para comprar smarties, ir à depilção, dormir ou mandar uma, mas que aqueles que não gozando baixas, não gozando de reduções de horário, não tendo a restrição normal na disponibilidade por causa dos horários das creches/consultas/reuniões de pais/dias da criança/dia da mãe e o caralho que foda, não tenham também direito a estas "medidas de motivação".
E a discussão foi-se acendendo, mães furiosas, que eu não durmo, que o meu filho te vai pagar a reforma (putadocaralho), que eu saio daqui e sabes lá o inferno do fim de dia que me espera, que os filhos com 15 dias não podem ficar sozinhos. E às tantas, eu, que no fundo, toumacagar para tudo isto, comecei a ficar nervosa. Acho que a minha antiga tem TODA a razão. Não me venham cá dizer que isto é uma medida de apoio à natalidade, não me fodam, não é para ter mais uma tarde por ano para comprar smarties e bolos, que vou desatar a parir para dar de comer à segurança social. Isto é tão somente uma medida de motivação. E sendo uma medida de motivação, quase arrisco a dizer que a minha antiga, com total disponibilidade para a instituição onde trabalha, sem restrições de horários, sem dias de mães/criança/pai e cão, sem baixas infindáveis e regressos desmemoriados e improdutivos, merece muito mais a merda da tarde do que eu. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Escrever até que os dedos me doam, vomitar sílabas, esquecer o nexo, a lógica, deixar vir o que tem de vir, nem sempre é fácil, apalavrar a alma, traduzi-la, é, por si só, um raciocínio, ainda assim, lembrar-me para sempre dos dentinhos separados pela chucha do meu caracóis de sol, a forma como diz os “éxes”, fotografar na memória a gargalhada babada no meu escurinho pequenino, não esquecer o cheiro que eles têm de manhã, dengosos e quentinhos, mistura de leite e fralda, parecendo nojento é bom, reter cá dentro, para sempre, a mão do meu marido, forte e decidida, para mim as mãos são o espelho da alma, na cabecinha pequenina do mais novo, oferecendo-lhe sono na nossa cama às 5 da manhã. Deixar voar para fora de mim as raivas, as desilusões, as coisas tão feias que se ouvem nos telejornais, não sei porquê mas parece que têm mais cola na memória, fica mais difícil esquecer o que eu nem queria saber, uma espécie de um detox, tão chique que é fazer detoxes, mas do coração, beber mais, muito mais, aqueles momentos que são bons. Não me esquecer da temporalidade das coisas. Isso sim é de valor. Porque o que é mau há de passar. O que é bom pode não mais voltar.


E ainda não me doem os dedos…

terça-feira, 21 de abril de 2015

Coisas que me irritam

Pessoas que se amam excessivamente. Ou então não.
O meu cão ladrar furiosamente para um grilo que passou. Ás três da manhã. À janela dos meus (notivagos) filhos.
Ter cigarros e não ter isqueiro.
Fo(u)fices.
Ser vagamente enconada.
Ressacas com filhos.
Mails com a fatura da edp.
Pessoas que fazem boquinhas nas selfies.
Os filhos dos outros dormirem a noite toda desde os 12 dias de vida.
Pessoas que dormem até tarde com filhos.
Eu ser tão obcecada com a questão dos sonos.
Pessoas que mastigam ferverosamente obrigando-nos a imaginar todo o seu processo digestivo.
Pessoas (que conseguem ser) saudáveis.
Esterias e a sua imortalidade.
Ter mais pelos que cabelo.
Ser obrigada a ter vida social quando se está numa fase que mal se tem vida pessoal.
O dinheiro nunca chegar.
A propósito do item anterior, haver sempre um "oops foda-se" todos os meses que nos lixa o orçamento.
Entregar o IRS sempre muito perto do fim.