segunda-feira, 2 de março de 2015

Então foi assim

(um dois três, inspirem fundo que esta merda não vai ter pontos finais)

Há um ano foi assim, e, para não quebrar a tradição, este ano começamos com um febrão descomunal, toca de adiar a festa para o fim de semana seguinte, quinta fico em casa com o meu adolescente mais velho, muito colo, ida ao médico e mimo, o pequenino de olho negro, cabrãozinho amoroso, está numa fase de estalo, mas não se dão estalos a bebés, isto porque grunhe o dia inteiro parece um gremlin árabe, e de noite resolveu que é fixe chorar de hora a hora, chega sexta, venho trabalhar com vagas horas de sono, toda fodida da cabeça, de manhã para marcar as minhas férias tenho de enviar o mesmo mail 5 vezes, pareço anormal ora sem anexo, ora com anexo errado, ora com datas erradas, passa-se o dia, chego de gatas a casa, salpico febril e carente, Manuel rabugento e babado, só quero que o meu adónis chegue, estou quase a trancar-me na casa de banho de fones nos ouvidos a cantar bem alto ESTAVIDANÃOÉMINHAESTAVIDANÃEÉNHA, liga adónis, tou sem carro, não pega, chega tarde e exausto, passa-se a noite, devagar devagarinho, interrompida de hora a hora a hora, sábado de manha sai adónis para tratar do carro, fico sozinha com as pestes, salpico febril e carente, Manuel começa a ficar quentinho, oh diabo OH DIABO PARA NÃO DIZER OH CARALHO, o dia avança e chega finalmente a noite, ponho benuron no Manuel, deito-o, e janto, eis se não quando Manuel desata-me num berreiro, mas berreiro de o ter de virar de cabeça para baixo para voltar a respirar, nada o acalma, choro gritado olhar fixo na parede, cagaço da vida, o que tens puto, ligo para a saúde 24, mandam-me recambiada para as urgências, Manuel adormece ao colo do pai, achas que ainda valer a pena ir? Acho, acho mesmo, e vamos, pomos o puto no ovo e ele abre um olho escuro e esperto, o meu coração para, ai que me vai aos berros até ao hospital, mas não, ri-se o cabrão, chegamos às urgências e sou recebida com um abraço pela mesma medica que o havia internado com tosse convulsa há uns meses atrás, então o que a traz por aqui, e eu embaraçada, olhe que pareço doida mas juro que ainda há pouco achava que o puto tinha sido possuído por um demónio maléfico, dispa-o lá então, e eu dispo aquele gorducho, de bochecha rosada, boca escancarada a exibir os dentinhos novos e um sorriso angélico, ai que vergonha, cabrão do puto, medica observa, vê tudo, e ele dá às pernas e aos braços, ri-se, mamamamama, só gracinhas o estupor, bom, não vejo nada, se calhar foi uma cólica, e eu, pois, se calhar, voltamos para casa, três da manhã, durmo três horas interrompidas, 6.30 canto os parabéns ao meu salpico, meu amor grande, meu miúdo de 4 anos, e ele de riso envergonhado, diz-me que não senhora, sem insuflável e coijas boas não faço anos. Tudo bem meu amor. Celebramos, se deus quiser, no fim de semana que vem.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A minha primeira barriga vai fazer quatro anos... Quatro. A minha segunda barriga já tem a mania que tem vontade própria e tem dois dentinhos.
A minha primeira barriga, aquela explosão de sentimentos, totalmente aleatórios, completamente absurdos, faz quatro anos no domingo que vem. 
A minha segunda barriga ri-se com gargalhadas e faz burrico velho. Querido pá...
As minhas duas barrigas já começam a comunicar um com o outro. Oia maneli. Axim vomitas, não chores que estou aqui. E ele responde com um grunpfgrnhau. E eu, da porta da rua, faço de voyeur e pergunto-me quando foi que isto aconteceu, isto do tempo lhes dar tamanho e vontade?...
A minha primeira barriga come-me com beijos, tem um complexo de édipo apaixonante, é vagamente piegas e estupidamente cômico. E faz já, no domingo que vem, quatro anos. E a minha segunda barriga vai estar cá para lhe soprar pela primeira vez de muitas as velas de aniversário.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A minha vida é boa

A minha vida é boa. Tenho dois filhos saudáveis, cada um mais giro que o outro, acho aliás que são as melhores crianças deste mundo, sorriem, comem bem, começam a deixar-me dormir convenientemente, fazem sucesso nas ruas e cafés. Tenho uma casa no campo, é pequenina mas acolhedora, o quarto dos meus filhos é quentinho e tem o princepezinho na parede. Tenho brinquedos suficientes para os entreter, tenho internet e tv cabo, tenho um cão, paneleiro mas tenho um cão, dois carros e o passe para o comboio. Todos os fins de semana bebemos café fora, compramos legumes na mercearia local, e borrego no talho da terra, quando está sol grelhamos entrecosto na rua e temperamos as batatas com alecrim colhido diretamente do canteiro. Da janela da sala vejo a serra, e do meu quarto o palácio da pena, de noite quando está calor durmo de janela aberta e oiço grilos e corujas. Se me distraio entram pirilampos no quarto. Todos os dias levanto-me as 6 da manhã, arranjo-me e ponho salto alto para vir para um trabalho que gosto. O meu marido parece um modelo, é só pinta, cabelo loiro, constante sorriso que condiz com a sua maneira positiva de encarar a vida. Ainda por cima ama-me à séria, como diz o meu filho mais velho. Eu também o amo. Tresloucadamente. Discutimos pouco e apanho-me às vezes a mirá-lo enquanto faz jogos com os putos na sala.

A minha vida é boa. Sei que me queixo, sou piegas e canso-me com facilidade. Passo-me quase todos os fins de dias, entre banhos, birras e sopas e tenho vontade de matar alguem quando me acordam de noite. Mas a minha vida é genuinamente boa. 



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Quando andamos a correr, egoístas no nosso pequeno dia a dia, queixosos da rotina, do comboio que vem atrasado ou da noite mal dormida, não nos apercebemos da sorte que temos pelo simples facto de nos podermos dar ao luxo de estar chateados com pintelhices. Como ser humano que somos, por norma, não dizemos ou sentimos que somos assim mesmo felizes. Porque somos ingratos e havia sempre algo mais que podíamos ter...
Eu própria sou assim. E neste momento estou zangada. Zangada comigo, zangada com a vida , zangada com Deus. 
A vida brinda-nos às vezes com pessoas maravilhosas. Pessoas que nos ensinam quase que com uma chapada de luva branca neste focinho egoísta e ingrato, que nos devíamos mandar para o chão e agradecer. Só agradecer, parar de exigir e contemplar pelo menos 5 minutos por dia o céu azul, a gargalhada dos nossos filhos, o jantar na mesa, a saúde que temos. 
Estou triste, tão triste. Minha tia valente, minha tia do cancro teimoso, esse cabrão que te vence agora, ensinaste-me tanto com a tua persistência e coragem. Ensinou-me esse vosso amor, essa vossa entrega aquilo que realmente é importante. Descansa agora que mereces... Mas deixa-me que chore zangada, só por hoje, por não entender esta puta de injustiça. Um beijinho do tamanho da sua fé...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Por causa do post anterior

Por exemplo, agora estou a ouvir a banda sonora do pearl harbor, está uma risca de um avião a rasgar um céu de repente azul, e eu lembrei me do cheiro a lavanda do abraço do meu avô e fiquei com vontade de chorar.

Isto pode ser fruto do cansaço não se preocupem

Isto é a minha cabeça, a vaguear naqueles momentos que tenho meus a caminho e de volta do trabalho. Eu sou de tal forma influenciável que a música que ouço altera em absoluto o meu estado de espírito. Ora venho toda contente a bater o pé e aos estalinhos na língua a ouvir avicii, ora entro numa espiral absolutamente profunda e filosófica a ouvir noiserv. Este post não tem sentido absolutamente nenhum, mas dei por mim a olhar pela janela do comboio, e no momento h da música um raio de sol atravessa furioso uma nuvem e atinge-me a cara. E sem saber porquê achei isto altamente poético. E bonito. E pronto, agora vou mudar de música  e imaginar-me toda maluca a dançar a ouvir Sara Tavares.